Dizem que um dia Buda foi arrastado para o inferno.
E que o inferno descobriu, tarde demais, quem havia recebido.
Assim que ele chegou, as criaturas começaram com gritos, ameaças, gemidos. Barulhos insuportáveis.
As almas choravam. Os monstros urravam. O ambiente inteiro parecia pulsar medo.
O inferno tinha um funcionamento simples: quanto maior o medo, maior o caos. Quanto maior o desespero, mais força aquele lugar ganhava.
Porque o inferno se alimentava da reação.
Então os monstros se aproximaram de Buda e mostraram dores, criaram ilusões, tentaram provocar pânico.
Mas ele não correu, não gritou, não reagiu. Apenas sentou-se no chão. E fechou os olhos.
Os demônios aumentaram os ruídos: mais gritos, mais violência, mais caos.
Era como se o inferno inteiro estivesse tentando arrancar dele algum tipo de reação emocional.
Mas nada acontecia.
As horas passaram. E algo estranho começou a acontecer.
Os monstros foram diminuindo os gritos. As almas começaram a se calar. O caos perdeu intensidade.
Porque, pela primeira vez, o inferno não encontrava alguém disposto a alimentá-lo.
Então o inferno ficou em silêncio.
Não porque deixou de existir, mas porque perdeu sua fonte de combustível.
**********************************************************************
Essa história não é sobre o inferno, é sobre a mente humana.
Grande parte dos caos psicológico funciona exatamente assim.
Ele precisa da sua resistência, da sua identificação, da sua reação compulsiva.
Precisa que você lute contra ele o tempo inteiro.
Quanto mais você entra em guerra com certos pensamentos, mais energia entrega a eles.
Quanto mais medo sente do medo, mais ele cresce.
Quanto mais luta desesperadamente contra o caos interno, mais ele ocupa espaço.
Isso não significa passividade.
Nem fingir que a dor não existe.
Significa compreender que consciência não é a mesma coisa que reação.
Há um ponto em onde a mente para de alimentar o próprio inferno.
E é exatamente ali que ele começa a perder a força.
Porque o caos não sobrevive sozinho.
Na maioria das vezes, ele depende da sua participação inconsciente para continuar existindo.